28 de mar de 2016

BAÚ DO ROCK RORAIMA - O ROCK MACUXI PEDE PASSAGEM


Fazer rock num estado onde imperam ritmos como o forró e o brega não é coisa fácil. É preciso derrubar muitas barreiras culturais, passar por cima até de preceitos éticos. “É chover no molhado”, diz um. “É dar murro em ponta de faca”, reclama outro.

Mas, para um bando de abnegados roqueiros de Roraima, tudo isso cai por terra. Eles nunca mediram esforços para tirar a banda da garagem e botar nos palcos, por mais improvisados que eles pudessem ser.

Desde meados da década de 1980, quando eclodiu o movimento rock por aqui, influenciado pelas mais diversas bandas nacionais e internacionais daquela década, o movimento rock em Roraima tem lutado para sobreviver no meio de uma profusão de ritmos que surgem a cada temporada.

Todas as bandas daquela década mágica do rock se perderam no tempo e ficaram apenas na memória dos apaixonados pelo bom e velho rock and roll. 

Quem tem mais de 30 anos e viveu em Boa Vista naquela época não esquece de bandas como a Classe Média, com Ben Charles (que hoje tem um estúdio de gravação em São Paulo, o La Toca Music), César Rebouças, Ricardo, Lobão e Geladeira; a Grande Capital, com o saudoso Mario Vander, Bacamarte e Elton e Careca; e a Naja, de Odely Sampaio, Clovis, Fanderson e Jorge Holanda.

O jornalista e radialista Jeremias Nascimento, que sempre privilegiou o bom e velho rock and roll em seu programa Manhã Total, na Tropical FM, e viu surgir esse movimento naquela época “como um mero espectador”, lembra do tempo em que tudo começou e da dificuldade que as bandas tinham.

“Eram poucos os locais onde as bandas podiam se apresentar. Lembro bem do Marukão, do Sandubão, da Sorveteria Icaros e da Sorveteria Filhotas, que reuniam a moçada roqueira daquela época, sempre com bons shows”, recorda.

O baterista Clovis, que hoje toca na banda Arikek, é um dos precursores do movimento rock em Roraima e fala com saudosismo da época.

“Sempre tinha muitos festivais nas escolas, no ginásio Hélio Campos e na Praça da Bandeira. Foi uma fase muito boa na vida de toda aquela gente que vivenciou o nascimento do rock por aqui”, diz.

Na esteira do sucesso do movimento ainda vieram outras bandas como a Face to Face (Paulo Amorim teclados e bateria eletrônica, Junior guitarra e Osman – baixo e vocal), a Corpus e já no início da década de 1990, a Savana, resultado da junção de integrantes de várias bandas extintas como Odely Sampaio, Elton e Careca, Jorge Holanda.

Por um período, o movimento rock caiu no ostracismo, um pouco devido alguns músicos terem ido embora do Estado ou por pura falta de espaço onde as bandas pudessem tocar.

NOVA GERAÇÃO

Como a chama do rock não podia se apagar, começaram a surgir novas bandas, sobretudo no circuito universitário. Foi nos corredores da Universidade Federal de Roraima que foram surgindo bandas como a Carolina Cascão (1995), com Avery Veríssimo (guitarra e vocal), Ruben Leite (bateria), Mario Vander (baixo), a Garden (1996), com Siddhartha Brasil (vocal), Rodrigo Baraúna (guitarra), Humberto Thomé “Cabeleira” (bateria), e André Dias (baixo), e, por último, a Mr. Jungle (2000), com Rhayder Abensour (guitarra base), Manoel Villas Boas (vocal), Adília Quintela (backing vocal) e Dant Alighieri (baixo).

A partir do início dos anos 2000, começou um verdadeiro boom de criação de bandas, impulsionadas sobretudo pela realização do I Fest Rock (2001),que teve a participação de 20 bandas locais, a maioria delas em início de carreira.

E foram surgindo também novos estilos. O que antes era centrado mais no pop rock, começou a ganhar contornos mais pesados, com forte influência do Heavy Metal, do Punk, do Hard Core e de outros sons apreciados pela garotada.

Foi nesse cenário que apareceram bandas como LN3 - a primeira banda em Roraima a subir aos palcos para cantar apenas composições próprias -, a Lepthospirose, Ironia, Estado de Coma – hoje Coma State -, entre outras, inclusive uma no município de Mucajaí, a Savage Storm.

A partir daí foi uma sucessão de bandas nascendo e morrendo, mas sempre mantendo viva a chama do rock, procurando sempre alternativas para conseguir espaços para tocar.

ESPAÇO ROCK

A busca constante por palcos onde pudessem tocar seu rock e reunir a galera, fez com que alguns líderes de bandas procurassem o Sesc (Serviço Social do Comércio) para tentar encontrar uma alternativa.

Deram sorte. O diretor regional, Kildo Albuquerque, um inveterado roqueiro, atendeu de pronto a sugestão das bandas e, então, foi criado o projeto Espaço Rock.

Lançado em 16 de julho de 2004, com um show que reuniu 11 bandas de Boa Vista, o projeto ainda hoje se apresenta como uma das únicas alternativas para o movimento rock em terras macuxis.

“No Espaço Rock tem lugar para todas as tribos que curtem o bom e velho rock and roll, seja ele mais recente para o gosto de adolescentes e jovens ou mais maduro, com os clássicos internacionais dos anos 70 e os nacionais dos anos 80”, diz Rosana dos Santos, técnica em cultura e coordenadora do projeto. 

O Sesc se tornou uma referencia para as bandas e os amantes do rock. Observamos uma juventude que se produz com roupas curiosas e marcam encontro para ver o rock no Sesc. 

“Depois que o Sesc abriu espaço para as bandas de rock, a modalidade ganhou a confiança e as casa noturnas também investiram e convidaram as bandas para apresentações. Até no arraial fora de época teve banda de rock. Então através desse apoio do Sesc as bandas cada vez mais ganham espaço na cidade”, comemora Rosana. 

O movimento rock está cada vez mais fortalecido, com cada vez mais bandas partem para composições próprias e tentando gravação de CD's, como é o caso da Mr. Jungle, a LN3 e a Ganden. 

O movimento também ganhou um site especializado, sempre trazendo notícias, agenda e entrevistas com integrantes das bandas, espalhando o rock como poeira pela grande rede.

II RORAIMA SESC FEST ROCK

A conquista do novo espaço acabou por incentivar a criação de novas bandas e, conseqüentemente, a retomada dos grandes festivais. O primeiro deles foi no ano passado e reuniu 22 bandas de Roraima e uma de Manaus-AM. 

Este ano o II Roraima Sesc Fest Rock acontece de 28 a 30 de julho e vai reunir 26 bandas de Roraima, além de uma de Manaus (Pink Rock) e outra de Georgetown, na Guiana Inglesa (Brutus).

Para Rosana, a primeira edição foi bastante positiva, com a integração perfeita das bandas participantes. “O festival é uma organização coletiva entre o Sesc e as bandas, que durante todo ano se apresentam no projeto Espaço Rock. Para esta segunda edição, teremos muitas bandas que se apresentarão com composições próprias. Vejo um amadurecimento de algumas bandas que estão compondo, gravando CD, e se apresentado em Manaus. Teremos um grande evento”, garante.

publicado originalmente em 26 de julho de 2006

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