26 de fev de 2016

SENTA A PÚA – SÉRIE ESPECIAL – UM CAVALO DE TRÓIA NO ROCK

Celebrando 6 anos de história, o Blog Roraimarocknroll revisita nessa série especial de 7 episódios a sua trajetória, relembrando os fatos marcantes do rock roraimense que fez do portal a maior referência em conteúdo rock do extremo norte do Brasil. 

Por Victor Matheus – www.roraimarocknroll.blogspot.com


Conhecer a gênese do blog Roraimarocknroll é abrir uma janela no passado e revisitar a história recente do rock roraimense da última década. Através do Blog, o leitor pode identificar momentos decisivos que convergiram no atual cenário que o rock local está inserido, e compreender também em qual contexto e por quais motivos - acredito serem bem claros desde a sua criação – fizeram deste espaço o maior portal e referência de cultura rock do extremo norte do Brasil. 


Veludo Branco no Festival Quebramar 2010 em Macapá/AP

A história do Blog Roraimarocknroll se mistura com a história deste blogger que aqui escreve e com a banda Veludo Branco. Talvez alguns leitores não entenderam porque no primeiro episódio há tantas fotos do power trio Veludo Branco. A verdade é que a história da Veludo Branco está intimamente ligada a história do rock roraimense, por ser uma das bandas mais expressivas de sua geração, além de outras contemporâneas do seu tempo como Iekuana, Sheep e banda Garden, todas ainda na ativa com um legado suficiente pra encher de orgulho as futuras gerações do rock macuxi. 

Em 2007, o power trio roraimense foi convidado para junto de outras bandas, entre elas Sheep, Several Bulldogs, Somero, Klethus, Iekuana e Mr Jungle, criar um Coletivo de Bandas, embarcando na onda de um novo movimento cultural, nascido em 2005 em Cuiabá, chamado Circuito Fora do Eixo, uma rede de coletivos espalhados pelo Brasil que fomentava e estimulava a cadeia produtiva da música independente, utilizando plataformas colaborativas no processo de construção desta rede e na circulação de artistas e bandas filiados pelo Brasil, além de atuar na produção e gestão de trabalhos e festivais independentes. Em Roraima nascia naquele ano o primeiro coletivo de bandas de rock, filiado ao FDE, o Coletivo Tomarrock. 


O lançamento do Coletivo Tomarrock aconteceu dia 22 de dezembro de 2007
com o Evento Tomarrock na Praça, em frente ao Guaraná do Marivaldo

No início, o Tomarrock provocou muitas polêmicas no cenário rock local. A bandeira do rock autoral defendida pelas bandas coletivadas entrava em choque com a realidade do rock local, onde o rock cover, ou melhor, bandas covers, predominavam na cena. Aconteceu um verdadeiro apartheid no rock nesse período. Esse processo de construção da identidade do rock de Roraima foi decisivo para compreender o que somos quanto cena musical hoje, e definiu os rumos da vida de muitas pessoas, bandas, e grupos. 


O "Núcleo Duro" do Coletivo Canoa Cultural/Tomarrock
no Grito Rock BV 2010

As famosas “tretas” que proliferam nas redes sociais hoje, não são exclusividades dos tempos atuais e vem desde muito antes, quando fotolog’s, Orkut, msn e blogs eram as redes sociais do momento, espaço virtual de circulação de informação e campo minado para debates e compartilhamento de opiniões. Muitos, principalmente jovens e novas bandas que ouvem ecos e histórias desse período, eram crianças ainda, e nem se quer imaginam o que já rolou nos bastidores do rock roraimense, principalmente nos tempos de Espaço Rock, projeto Roraimarock e Roraima Sesc Fest Rock, todos, promovidos pelo maior fomentador do rock local até hoje em minha opinião, o Sesc Roraima. 


Confraternização do Coletivo Canoa Cultural
com as bandas do Festival Tomarrock 2009

Em síntese, os coletivos funcionam como micro empresas, onde cada banda, ou membro filiado, exerce uma ou mais funções específicas, de acordo com seu perfil e sua disposição. O trabalho era dividido por Núcleos, e as demandas tinham o caráter local, regional, e nacional, mas sem regras específicas. Todo o processo de construção do Circuito ainda era embrionário, apesar de que se o conhecer mais profundamente como tivemos a oportunidade de fazer, fica fácil identificar muitos aspectos dessa construção sendo retirado de várias referências, ideias e staffs, principalmente de caráter marxista e neo-comunista. 


No caso da Veludo Branco, o Núcleo de Comunicação era no início de sua responsabilidade, naturalmente pela afinidade que seus integrantes tinham e ainda o tem com as redes sociais e ferramentas audiovisuais, como também a tomadas de decisões importantes do Coletivo, pela banda integrar também o Núcleo Duro, além de representar o Tomarrock nas chamadas “imersões” que realizava com coletivos parceiros nas viagens para participar nos festivais da Rede FDE e de parceiros. 


Veludo Branco no Festival Casarão 2009 em Porto Velho/RO

Como responsáveis do “NuCom” do Coletivo, fazíamos o melhor que estava ao nosso alcance. Fotografávamos os eventos, produzíamos vídeos para a webtv, colocávamos a mão na massa, carregávamos caixas, escrevíamos projetos, participávamos de reuniões, congressos do FDE, compartilhávamos produtos nas bancas da Rede, editávamos o blog do coletivo, e nos envolvíamos diretamente em todos os espaços disponíveis dentro da Rede FDE por acreditar ser esse o caminho a ser pavimentado para que pudéssemos enfim viver o sonho da música e se sustentar dela. Porém, a medida que crescíamos em relevância, competência e destaque neste processo não só como banda filiada, mas também como colaboradores eficientes, os problemas começaram a aparecer também. 


Núcleo de Comunicação do Canoa Cultural em Ação  em 2009

Após dois anos de Tomarrock, o caráter de coletivo de bandas deu lugar a um grupo cultural voltado as artes integradas. Não somente mudou o perfil do coletivo, mas também o seu nome, sugerido por uma de suas integrantes (prefiro não citá-la para evitar polêmicas – risos). O Tomarrock, como coletivo de bandas, encerrava sua história, sendo rebatizado de Canoa Cultural. Das bandas fundadoras, somente Veludo Branco e Mr Jungle continuaram “filiadas” ao Coletivo, em razão de seus integrantes participarem também, e circularem muito pelo circuito. A partir dessa mudança a filiação e colaboração vinha de pessoas, e não mais de bandas, como talvez ocorra ainda hoje, mas isso não sei e pouco interessa saber. 


Veludo Branco no encerrando o Tomarrock 2010
para um público de 2 (duas) pessoas

A princípio, as mudanças estruturais na organização do coletivo bem como o seu nome, abriram a oportunidade para o Canoa dialogar mais com outras identidades e entidades culturais e integrar outras artes nos seus projetos, participando de editais, firmando algumas parcerias e realizando eventos. O coletivo foi legalizado judicialmente, passando de uma organização sem fins lucrativos para uma Associação Cultural, com CNPJ, apta para captar recursos com o poder público e iniciativa privada. Era um passo necessário para o amadurecimento. 


Banca Solidária do Coletivo Palafita
Festival Quebramar - Macapá/AP - 2010

O Festival Tomarrock e Grito Rock continuaram sendo a vitrine do coletivo, mas agora novas ideias brotavam com a possibilidade de novos horizontes, como os projetos Canoa na Praça e o Canoa na Estrada, no qual ainda teve a participação da Veludo Branco como banda filiada. Nesse período de evolução, entre 2007 e 2010, a cena rock roraimense amadureceu absurdamente, e as tretas, anteriormente citadas, quase que tinham terminado por completo. 

Pude presenciar o surgimento de várias bandas legais, de estilos diferentes, divertidas de assistir e cheias de vontade de fazer acontecer. AltF4, HCL, Hangar HC, Kandelabrus, Ostin, Evlis From Hell, são algumas bandas legais que surgiram nesse período transitório do rock macuxi. Aos poucos bandas covers e autorais voltaram a dividir o mesmo palco também, e a paz e união no rock voltou a prosperar pelos lavrados de Roraima. 


Veludo Branco na Fortaleza de São José de Macapá

O Ano de 2010 pode ser considerado o grande auge para o power trio Veludo Branco quanto banda filiada ao FDE. Viajamos muito, para vários festivais da Rede, lançamos o primeiro disco da banda no Rio Grande do Sul, numa turnê que nos levou a lugares inacreditáveis, sendo a primeira banda de Roraima a lançar um disco fora do Estado e fazer turnê no Estado mais distante da terra natal, no outro extremo do Brasil, o Rio Grande do Sul. 


Entrevista pra MTV Belém durante o Festival Megafônica - 2010

Foi nesta turnê pelo Rio Grande do Sul, em março de 2010, que decidi criar o blog Roraimarocknroll, inicialmente para contar as experiências do power trio roraimense no circuito independente, um blog de caráter pessoal, para compartilhar com outras bandas o que aprendemos sobre o mercado independente da música, e claro, promover nossa banda. Simplesmente queria replicar o que aprendi com minha experiência dentro de uma banda independente e relatar a dura vida do artista igual pedreiro num circuito independente. 


Veludo Branco na Turnê de Lançamento do disco de estréia em 2010
Macondo Lugar - Santa Maria /RS
As viagens e imersões foram muito desgastantes para nós, sobretudo porque nunca recebemos nenhum patrocínio para as viagens, nenhuma ajuda de custo ou cachê por onde tocamos nos festivais do FDE. Seguíamos as “regras do circuito”, sendo recebidos nos festivais com hospedagem solidária, sem receber cachê nos festivais ou qualquer ajuda de custo, participando das intermináveis e monologas reuniões de imersão, compartilhando a realidade da nossa cena e conhecendo a realidade de outras cenas. Tudo na teoria parecia lindo, mas na prática, começamos a perceber que não era bem assim. Nesse processo, o convívio interno da banda foi duramente afetado pelo fator financeiro, ao ponto de termos que recusar convites para tocar em festivais por falta de apoio. 


Congresso Fora do Eixo em Belém do Pará , 2010

O último festival que participamos quanto banda filiada ao FDE foi em Belém do Pará, em agosto de 2010. O Festival Megafônica, promovido pelo coletivo Megafônica, filiado ao FDE receberia também o Congresso Fora do Eixo Norte, onde vários coletivos do norte e do Brasil se encontrariam para discutir os rumos da Rede e articular novas ideias, projetos, festivais, circuitos, etc. Foi nesse congresso que conhecemos profundamente o Circuito Fora do Eixo, nos aproximamos do Núcleo Duro Nacional, e descobrimos algumas coisas desagradáveis que nos decepcionaram. O que nos foi revelado ali nos deixou chocados, indignados e fez cair a ficha de coisas que já suspeitávamos desde o surgimento do Tomarrock. 


Batendo um papo com o jornalista e grande amigo Fábio Gomes
no Festival Megafônica em 2010

Já desgastados com a iminente possibilidade de saída do nosso baixista, Mirocem Beltrão, que estava tomando outros rumos na sua vida pessoal e profissional, as contas financeiras em frangalhos (investimos nada menos que uma quantia próxima de 25 mil cada um em viagens para shows dentro do circuito Fora do Eixo), decepcionados com o que havíamos descoberto no Congresso FDE sobre a conduta e o caráter covarde de pessoas que julgávamos amigos e parceiros, decidimos nos desligar definitivamente do FDE e seguir a carreira de forma independente. 


Imersão dentro do Coletivo Megafônica em Belém/PA

Voltamos para Boa Vista decididos a seguir uma carreira musical independente. Comunicamos nossa saída definitiva do Coletivo e do FDE e definimos os próximos passos que a banda tomaria daquele ponto em diante. A banda Veludo Branco como power trio deixara de existir, então tomei a decisão de respirar novos ares, refletir sobre a Vida, as amizades, meus projetos pessoais, os sonhos com a minha banda, a minha existência em si nesse universo, faculdade, vida pessoal... A verdade é que eu estava imensamente triste, decepcionado, desapontado e em estado de choque com o que descobria sobre o FDE no Festival Megafônica, sobretudo porque envolvia pessoas nas quais eu considerava como irmãos, amigos e amigas do peito, pessoas no qual depositara minha confiança, compartilhava meu amor, minha lealdade, minha fidelidade, mas que na realidade não passavam de uma ilusão na minha Vida e oportunistas. 


Com Sady Menescal, grande amigo e ex baixista da banda Mini Box Lunar
em Macapá/AP

Algum tempo depois, com a cabeça no lugar, planejei solitariamente iniciar um novo caminho com a Veludo Branco e assumir definitivamente e profissional a minha outra paixão, a produção cultural. Desse ponto em diante, o Blog Roraimarocknroll passaria a ser um portal de notícias sobre a cena rock de Roraima, eu colocaria em prática um projeto cultural batizado extra oficialmente com o nome sugestivo de “Operação Cavalo de Troia”, e presenciaria o nascimento de alguns mitos sobre a minha pessoa. A partir dessa decisão, minha Vida tomaria rumos sem retorno, e eu pagaria um preço muito caro, tanto na vida pessoal, como na vida artística, para chegar até aqui... 

Continua... 

Um comentário:

Ramon Hiama disse...

Iscrivinha mais aí meu jovem! Tô querendo ler!! Laaaaaastro