18 de mai de 2015

ROCK PARK – DE VOLTA AO UNDERGROUND

Ganhei minha primeira guitarra aos 14 anos, depois de provar ao meu pai, através do estudo, da disciplina, do meu trabalho, que eu merecia receber aquele incentivo, aquele “paitrocínio” para investir no meu sonho de ter uma banda de rock n’roll e seguir meu caminho... Mas conquistar este sonho foi apenas o primeiro passo, afinal, só ter uma guitarra não bastava, precisava de uma caixa de som, pedais, juntar amigos, montar uma banda, ensaiar e finalmente fazer shows, só que há 15 anos, na cidade onde cresci e moro, o espaço para rock n’roll era bem diferente de hoje, e mais difícil que convencer seu pai a lhe presentar com uma guitarra, era ter espaço para fazer um show de rock, com som legal e um público entusiasmado.


Hoje o cenário é bem diferente, Boa Vista cresceu muito, e a explosão demográfica, social e virtual, como diz o mago André Abujamra “destribificou” a mente da juventude high tech, interligadas por seus smartphones, prints, twitters e whatsapps, facilitando em muito a articulação de grupos, bandas, bem como a divulgação de eventos, bandas e tudo que envolve a cadeia produtiva da música, em especial o rock n’roll, ainda que os veículos tradicionais como rádio, televisão, jornal e até o blog ainda alcancem grande parte do público em geral, tanto que ainda me surpreendo quando alguém me para em algum lugar e me diz ser leitor destas linhas bloggers... 

Nesse ambiente high tech soube que umas bandas de rock, entre elas bandas de estilo gospel, underground, iniciantes, veteranas e seus entusiastas, estavam se reunindo para organizar um evento no Parque Anauá (o lugar mais democrático e legal para fazer um som hoje em Boa Vista). Já me animei pela atitude em si, e quando soube que para organizar o evento as bandas de forma colaborativa levantaram uma grana para alugar o equipamento de som me recordei novamente de como era feito shows antigamente em BV, com cada banda levando o que tinha de equipamento para fazer um rock ali na Praça Ayrton Senna, ou na Praça do Viaduto no bairro Pricumã, ou no mesmo Parque Anauá que desde os anos 80 e até antes já abraçava o rock underground... Alguém aí se lembra dos shows da lendária banda Classe Média no Parque Anauá na década de 80?

Rodrigo Mebs e Victor Matheus - Sempre entusiastas do rock macuxi

No mesmo lugar que já foi palco para muitas histórias e também shows, a pista de skate do Parque Anauá, aconteceu no último sábado, o evento mais legal de rock no ano em Boa Vista, o Park Rock, reunindo várias tribos em torno da pista para curtir os shows de várias bandas locais. Poderia ser mais um evento de rock como tantos que vamos prestigiar em BV, mas o Rock Park tem em seu DNA algo que há muito se perdeu no cenário rock roraimense: O espírito de União! 

Em meio ao público e bandas, encontramos várias tribos convivendo harmoniosamente, alguns punks, outros junkies, evangélicos, veteranos do rock macuxi, e principalmente novas bandas fazendo um som autoral e cover com atitude, com emoção, com tesão! Desde o cover de clássicos do pop rock ao som autoral ainda embrionário, o que presenciamos no Park Rock foi à celebração da essência máxima do rock n’roll: A Atitude! 

Entre os intervalos de cada show, intervenções de rappers e de poesia animaram o publico, até que uma novata banda, de apenas dois meses de história, subiu ao palco e minha atenção foi totalmente arrebatada!

Trupe de Marte - O futuro do underground roraimense

TRUPE DE MARTE é uma banda que nasceu para brilhar! Sim! Para brilhar muito bicho! Tem no vocalista Cássio Freitas o ímpeto que falta para 99% dos front-mans do rock macuxi na atualidade, afetados pela eterna síndrome pós Los Hermanos! O cara tem atitude, têm os trejeitos de um genuíno rock star, um híbrido de Freddye Mercury e Cazuza, bom letrista, seguro de si no palco, e a banda, ainda que imatura musicalmente, se esforça para dar o melhor de si... 

Como não se arrebatar por uma banda que no início do seu show e tendo apenas dois meses de estrada anuncia que a apresentação será 100% autoral? É de arrepiar! É de fazer o sangue pulsar mais fortes nas veias, e se entusiasmar em ver uma nova gurizada dando tudo de si no palco e cantando seus sentimentos, sem pudor, sem medo, sem se preocupar com falhas, técnica apurada ou um solo perfeito, apenas fazendo aquilo que sabem, com o coração, com suor! Foi um show que fez renovar a esperança do futuro do rock roraimense, personificado em 5 jovens motivados pelo amor a música, pela inspiração que só o rock n’roll proporciona!

Ditambah - Lastro no rock roraimense

Ainda tivemos um show grandioso da banda DITAMBAH, que fez do palco, um púlpito de celebração ao grande lago celestial do tambaqui, e nas palavras do vocalista Rodrigo Mebs, “ver a tempestade cair, a cidade se inundar, ninguém podendo fugir, e o fogo no céu brilhar”, ecoando nos altos falantes e até nas redes sociais “en vivo”, para delírio do público e desespero da vizinhança! É o rock pelo rock porra!

O Park Rock decretou um novo rumo ao rock de BV, ocupando uma lacuna há muito tempo apagado no rock local, mas que agora tem seus representantes, seus entusiastas, e principalmente, tem as portas abertas para abraçar o underground roraimense, tão maltratado pelo poder público responsável pelo fomento e incentivo a cultura local e que não abre espaço para o underground, não enxerga que Boa Vista não se resume ao que se está sendo feito da avenida Venezuela pra cá até as redondezas do Mirandinha...

Estúdio 631 e KS Stúdio unindo forças em prol do underground

A cultura, especialmente o rock, é muito mais que um instrumento político, de massa de manobra, mas é o meio mais democrático e rápido de fazer as pessoas pensarem, refletirem, e compreenderem que o ambiente que vivemos é muito mais que prints no whatsapp ou links no facebook... É um organismo evolutivo e mutante, que nos aponta caminhos, nos oferece opções e nos liberta de infinitas formas... É o rock que nos aponta o caminho da liberdade, e que esta trilha siga pela direita, como tem feito o underground, afinal “cada um vende o seu peixe, cada um compra o que quer”. 

Vida longa ao rock n’roll roraimense! Vida longa ao underground! Vida longa ao Park Rock!

Fecha a conta.